O DIREITO DIVINO DO GOVERNO DA IGREJA – PARTE 2

JUS DIVINUM REGIMINIS ECCLESIASTICI

AS CHAVES DO REINO: CONGREGACIONALISMO OU PRESBITERIANISMO?

Traduzido e adaptado por diác. Wallas Pinheiro

ARGUMENTO 2

Como a multidão dos fiéis não tem concessão ou comissão autêntica do poder das chaves da Igreja, então ela não tem autorização de Deus para a execução do poder destas chaves e, portanto, não pode ser o primeiro receptáculo das chaves de Cristo.

Em prol disso argumentamos:

PREMISSA MAIOR

Quem quer que seja o primeiro sujeito ou receptáculo do poder das chaves que vem de Cristo, tem a autoridade de exercê-lo e pôr em execução tal poder.

PREMISSA MENOR

Mas a multidão dos fiéis ou sua comunidade não tem autoridade divina para exercer e pôr em execução o poder das chaves

CONCLUSÃO

Portanto, a comunidade dos fiéis não é o primeiro sujeito, ou receptáculo imediato do poder das chaves que vem de Jesus Cristo.

A PREMISSA MAIOR PROVADA

A premissa maior precisa devidamente ser fundamentada. Pois,

  1. O poder das chaves contém a autoridade e exercício dele, com o poder sendo dado para este fim, para benefício da Igreja. É dito que é o poder dado para nossa edificação (2 Co 10.8). Onde não há exercício de poder não pode haver edificação pelo poder.
  2. Tanto a autoridade quanto seu completo exercício foram dados uma única vez e juntamente comunicados por Cristo ao receptáculo deste poder, “Eu lhes dou as chaves do reino dos céus, o que ligarem na terra…”, etc. (Mt 16.19 e 18.18); “Como meu Pai me enviou eu vos envio – a quem perdoardes os pecados, lhe serão perdoados” (Jo 20.21, 23). Nessas passagens vemos o poder e o exercício unidos na mesma comissão. Sim, o poder e o exercício dele são tão inseparáveis, que sob o exercício se deriva o poder e a autoridade: “Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando…” etc. (Mt 28.18, 19).
  3. Quão vão, inútil, impertinente e ridículo é imaginar e sonhar que tal poder possa nunca ser exercido por quem o possui.

PREMISSA MENOR PROVADA

A proposição menor, isto é, de que a multidão de fiéis ou sua comunidade não tem autorização divina para exercer ou pôr em execução o poder das chaves, é clara pela:

  1. Razão: pois a execução deste poder pertence aos oficiais por ordem divina, seja quando a igreja tem oficiais, seja quando apenas quer oficiais.

Não enquanto ela quer oficiais, pois isso seria desprezar os oficiais de Cristo: isso seria tomar a obra dos oficiais de suas mãos por aqueles que não o são, e quando não há necessidade urgente disso. Contrário, portanto, veja as provas de como tais coisas prejudicam a igreja, privando-a dos dons de Deus e dos labores dos seus oficiais.

Nem quando a igreja quer oficiais constituídos: no caso de haver três ou quatro presbíteros, e o pastor morrer, dois dos presbíteros ficarem doentes ou algo do tipo, a igreja não tem autorização divina pra suprir a falta desses oficiais, pelo exercício do poder, como que executando o ofício de presbíteros. Pois onde a Escritura dá este poder para a comunidade em tais casos? Qual igreja sem sua liderança pode exercer tal poder com base no Novo Testamento? Ou o quê há no Novo Testamento que seja precedente para isso? Quão inúteis são os oficiais se os fiéis podem, como membros da igreja, exercer papel de presbíteros em cada uma de suas partes.

  1. Pela indução dos casos particulares é evidente que a comunidade não pode executar o poder das chaves por autorização divina.
    • Ela não pode pregar, pois “como pregarão se não forem enviados?” (Rm 10.15), porém, a comunidade não pode enviar, sendo muitos dela incapazes de exercer ofício, ou por causa de seu sexo (1 Co 14.34, 35; 1 Tm 2.11, 12) ou em razão de sua idade, por serem crianças – sendo que a maioria dos que estão na comunidade não pode pregar em função de sua deficiência nos dons para tal e da falta das qualificações escriturísticas para tanto (Tito 1 e 1 Timóteo 3). Nenhum membro entre mil é completamente preparado, a ponto de ser “apto para ensinar, convencer os que resistem, e que prega bem a palavra da verdade”. Ainda, eles não poderiam enviar a si mesmos, ainda que fossem capazes, pois nenhum homem pode tomar esta honra para si mesmo – sim, Jesus Cristo mesmo não glorificou a ele para se fazer Sumo Sacerdote (Hb 5.4, 5). Somente oficiais são enviados a pregar (Mt 16.19 e 18.19, 20; Mc 16.15).
    • Não pode administrar os selos, sacramentos, batismos etc., sob o Novo Testamento; pois quem deu ao povo tal autoridade? Cristo não conjugou a dispensação dos sacramentos na mesma comissão, de forma que os que fazem uma coisa fazem outra? (Mt 28.18, 19).
    • Não pode ordenar oficiais na igreja, enviando-os devidamente autorizados: pois, ordinariamente, a comunidade não tem qualificações e habilidades para examinar os dons de alguém para o ministério. Em nenhum lugar no Novo Testamento a comunidade é autorizada a fazer isto, mas outras pessoas distintas (1 Tm 5.22; 2 Tm 2.2; Tt 1.5 etc.). Nem a comunidade exerceu ou assumiu pra si mesma tal poder de ordenar ou enviar, mas somente oficiais, enviando e estabelecendo homens para pregarem (1 Tm 4.14; 2 Tm 1.6) e para serem diáconos (At 6.6), e ainda para serem enviados para longe (At 13.1-3).
    • A comunidade sem oficiais não pode exercer nenhuma de suas funções autoritativas e próprias; não pode admoestar, excomungar ou absolver; pois não temos preceito que permita tanto; não temos nenhum exemplo no Novo Testamento de que essas coisas podem assim serem feitas, não há preceito ou exemplo. “O que ligares na Terra…” (Jo 20.21, 23), “A um herege, após uma ou duas admoestações, evite-o” (Tt 1.10), “Eu decidi […] entregar ele a satanás” (1 Co 5.4), “A repreensão infligida por muitos” (2 Co 2), “A este entreguei para satanás” (1 Tm 1). Em nenhum lugar nas Escrituras a comunidade é colocada sobre ela mesma, para ser sua própria guia e governante, mas tem apontados sobre ela governantes e guias. Compare essas passagens: 1 Ts 5.12, At 20.28, 29, Hb 13.7, 17, 24 “Obedecei vossos pastores, e sujeitai aos que dominam sobre vós”.

Dessas premissas podemos concluir que, portanto, a comunidade dos fiéis não é o primeiro receptáculo nem sujeito do poder das chaves que vem de Jesus Cristo.

ARGUMENTO 3

                Jesus Cristo não deu nem prometeu à comunidade dos fiéis um espírito de ministério, nem os dons que são necessários para o governo da igreja: portanto, a comunidade nunca foi o primeiro sujeito do governo da igreja.

PREMISSA MAIOR

Quem Cristo faz o primeiro sujeito do poder do governo da igreja, a este Cristo dá o espírito de ministério e os dons necessários para este governo, pois:

  1. Como há diversidade de administrações eclesiásticas (que vemos na diversidade de ofícios), e diversidade de operações miraculosas, e ambas são para o benefício da Igreja, então ambos vêm do Espírito de Cristo, da diversidade de dons, sendo gratuitos, capacitando e qualificando para a atual administração e operação na igreja (1 Co 12.4-7).
  2. Qual passagem pode ser dada, em todo Novo Testamento, a respeito de indivíduos que Cristo tenha feito receptáculos, dando dons a eles bem como promessas, para qualifica-los para este governo? Veja o caso dos apóstolos e seus sucessores: “’Como meu Pai me enviou eu vos envio’. E tendo dito isso, soprou sobre eles e lhes disse: ‘Recebam o Espírito Santo: a quem perdoardes os pecados, ser-lhe-ão perdoados, a quem lhes reter, ser-lhe-ão retidos” (Jo 20.21-23). E “Ide, portanto, e façam discípulos de todas as nações, etc – e estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28.19, 20).
  3. Cristo, sendo a sabedoria do Pai (Cl 2.3; Jo 1.18) e fiel como foi Moisés em toda sua casa, sim, até mais fiel – pois Moisés era servo sobre outro servo, mas Jesus como filho e dono de toda a casa (Hb 3.2, 5, 6) – não pode ser sábio e fiel, se dá as grandes questões da igreja nas mãos dos que não são devidamente capacitados e nem qualificados por Ele mesmo.

PREMISSA MENOR

Mas Cristo não dá nem promete o espírito do ministério bem como os dons para o governo da igreja à comunidade, pois

  1. A Escritura ensina que os dons para o governo e ministério são dados não a todos, mas a algumas pessoas em particular no corpo visível de Cristo: “A um foi dado, pelo Espírito, a palavra de sabedoria, a outro a palavra do conhecimento” etc., não a todos (1 Co 12.8, 9); “Se um homem não sabe governar o próprio lar, como poderá cuidar da igreja de Deus?” (1 Tm 3.5). A fala do apóstolo insinua que nem todos os homens têm os dons e habilidades para governar seu próprio lar, muito menos pra governar a igreja.
  2. A experiência nos mostra que a multidão geralmente é destituída de conhecimento, sabedoria, prudência, aprendizagem e outras qualificações necessárias para a correta administração do governo da igreja.

CONCLUSÃO

                Portanto, Cristo não fez a comunidade dos crentes o primeiro sujeito do poder do governo da igreja.

ARGUMENTO 4

                A comunidade dos fiéis não é em nenhum lugar da Palavra chamada de governante da igreja: portanto, ela não é o primeiro sujeito do governo da igreja.

PREMISSA MAIOR

Aqueles indivíduos que são os primeiros sujeitos e receptáculos do poder próprio do governo da igreja de Cristo, são reconhecidos na Escritura como governantes da igreja. Isto é evidente,

  1. Pela Escritura, que não dará estes títulos se Cristo não tiver concedido – como os títulos de governos, autoridade e governança: como supervisores (At 20.28), governos (1 Co 12.28), presbíteros – e o que preside (1 Tm 5.17; Rm 12.8), e vários outros.
  2. Pela razão, que nos diz que governo e governantes são termos relativos e, portanto, a quem o governo pertence, pertencem também as nomenclaturas de governos, liderança, etc. e não ao contrário.

PREMISSA MENOR

A comunidade em nenhum lugar é chamada ou reconhecida como governo da igreja. Isso é claro, pois

  1. Nenhum título ou nome é dado pela Escritura que implique o governo da igreja pela igreja visível de Cristo.
  2. Há clara oposição e distinção dos que governam a igreja: a igreja é chamada de rebanho, os líderes são supervisores pelo Espírito Santo (At 20.28). A Igreja é santa, e estes chefes (Hb 13.24): estes estão sobre eles no Senhor, e consequentemente há quem esteja sob eles no Senhor (1 Ts 5.12).
  3. A comunidade dos fiéis não pode estar sujeita a si mesma, visto que ela é ordenada pela palavra de Cristo a honrar, obedecer e se submeter aos que a governam e, portanto, são distintos em relação a ela: “Reconheçam os que trabalham entre vós e presidem sobre vós no Senhor” (1 Ts 5.12); “Os que governam bem sejam dignos de duplicada honra” (1 Tm 5.17); “Obedeçam aos seus pastores, e se sujeitem a eles, pois velam por vossas almas” (Hb 13.17)

CONCLUSÃO

                Portanto, a comunidade dos fiéis não é o primeiro sujeito e receptáculo do poder próprio para o governo da igreja.

Traduzido do site Purely Presbyterian, no link: https://purelypresbyterian.com/2018/09/03/keys-of-the-kingdom-congregationalism-or-presbyterianism/

Imagem do topo: St Andrew’s Cathedral, Glasgow, Scotland, Domínio Público – Wikimedia Commons

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