A PREGAÇÃO E A CFW

Texto extraído do livro Preachers, Pastors, and Ambassadors: Puritan Wisdom for Today’s Church, de Chad van Dixhoorn (Locais do Kindle 4687-4693)

Traduzido e adaptado por diác. Wallas Pinheiro

2. A Confissão de Fé e os Catecismos: em dezembro de 1646, a Confissão de Fé foi enviada ao Parlamento.

À primeira vista, parece que a Confissão tem pouco a dizer sobre pregação e os pregadores. O papel do ministro (o termo preferido da Assembleia para o pregador ou pastor) na confissão não é anunciado em seu índice. Enquanto as Escrituras recebem o mais longo capítulo da Confissão e três capítulos são dedicados aos sacramentos, a pregação não possui nenhum capítulo. Isso não quer dizer que os pregadores e a pregação não sejam mencionados ou tenham um papel sem importância. Ao contrário, a Confissão afirma que junto com as Escrituras (‘oráculos’) e sacramentos (‘ordenanças’), o ministério é um dom do próprio Cristo para a “Igreja católica visível… para a união e aperfeiçoamento dos santos, nesta vida até o fim do mundo” e que Cristo promete “pela Sua própria presença e Espírito” tornar estes dons eficazes. O mesmo vale para o Catecismo Maior. O Catecismo cataloga “o ministério do evangelho” entre “os privilégios especiais da igreja visível” e demonstra que entre ‘os deveres exigidos no segundo mandamento’ estão ‘receber, observar e manter puras e íntegras todas as adorações religiosas e ordenanças como Deus instituiu em sua palavra’, destacando-se “a leitura, a pregação e a audição de a palavra.”. Talvez isso lance luz sobre a insistência da Confissão de que, fora da igreja, não há possibilidade comum de salvação. Essa ênfase certamente corresponde à visão elevada da Confissão a respeito do ministro. Ao longo da confissão, e particularmente no Catecismo Maior, são frequentes as referências ao ministro. Os ministros, juntamente com os magistrados, são as pessoas pelas quais a igreja deve orar de modo particular. Os ministros são as únicas pessoas capazes de administrar ou dispensar os sacramentos; e, com outros oficiais da igreja, administra a disciplina. Os ministros são os que devem se reunir em sínodos e, ‘Se os magistrados forem inimigos declarados da igreja, os ministros de Cristo, por si mesmos, em virtude de seu ofício,… podem reunir-se em tais assembleias.” Mas enquanto o ministro tinha todos esses deveres (e muitos mais), sua tarefa principal era pregar. No topo da lista está o fato de que “sob o evangelho Cristo, a substância [é] exibida, [e] as ordenanças em que esta aliança é dispensada são a pregação da Palavra e a administração dos sacramentos… Enquanto Cristo é pregado tanto no sermão quanto no sacramento, ‘arrependimento para a vida’ e ‘fé em Cristo’, são ‘pregados por cada ministro do Evangelho’, em particular no sermão.” É uma forma pela qual a aliança da graça é administrada sob o Novo Testamento. Por esta razão, o Catecismo Maior fornece aos paroquianos um manual de instruções para ouvir os sermões. A Assembleia salientou aos seus leitores que não é somente através de censuras claras, mas também pelo exercício regular do ‘ministério do Evangelho’ que ‘as chaves do reino dos céus’ são exercidas na igreja ‘para reter e perdoar pecados; fechar aquele reino contra os impenitentes, e abri-lo para pecadores penitentes’. A esperança que a pregação oferece aos perdidos é um tema recorrente nos escritos da Assembleia. Pela pregação, os eleitos são chamados para fora de seus pecados e para um estado de graça. É claro que nem todo ouvinte é salvo, e alguns que são mentalmente incapazes de entender a pregação ainda podem ser salvos, mas, como o capítulo sobre a ‘Fé Salvadora’ diz: ‘A graça da fé, pela qual os eleitos são capacitados a crer para a salvação de suas almas, é a obra do Espírito de Cristo em seus corações, e é ordinariamente operada pelo ministério da Palavra: pelo qual também [a Palavra pregada], e pela administração dos sacramentos e oração, ela [isto é, a fé] é aumentada e fortalecida.’

A ênfase na eficácia da pregação é sublinhada repetidamente pela Assembleia. Não apenas é mencionada na Confissão, como acima, mas é encontrada novamente no Breve Catecismo e é particularmente enfatizada nas Perguntas e Respostas de número 155 do Catecismo Maior: Como é a palavra tornada eficaz para a salvação? R. O espírito de Deus torna a leitura, e especialmente a pregação da palavra, um meio eficaz de esclarecer, convencer e humilhar pecadores; de tirá-los [ou tirar a confiança em si] de si mesmos e atraí-los para Cristo; conformando-os à sua imagem e subjugando-os à sua vontade; para fortalecê-los contra tentações e corrupções; para edificá-los na graça e estabelecer seus corações em santidade e consolação pela fé para a salvação. Embora todas essas citações sejam úteis ao mostrarem a centralidade da pregação nas mentes dos teólogos, nada explica mais claramente do que a pergunta e resposta acima. A pregação é a única coisa útil para qualquer pessoa antes e durante toda a vida cristã. Sim, a Escritura e o sermão são eficazes através da obra do Espírito, para os mesmos propósitos espirituais. Sim, enquanto a menção acima indica o que a pregação “especialmente” faz, também implica que a leitura da Palavra é capaz de fazer o mesmo. Mas a diferença entre eles está no grau de eficácia. A Escritura, como O Capítulo Um da Confissão afirma, tem muitas qualidades que são úteis e únicas, e é ‘suficiente para dar o conhecimento de Deus e de Sua vontade, que são necessários para salvação.’

De acordo com a Assembleia, a pregação é a ferramenta mais poderosa no arsenal da igreja. Talvez a razão para isso seja encontrada nas instruções para os ouvintes, onde os que ouvem ao sermão são informados de que ‘é exigido daqueles que ouvem a palavra pregada, que eles… recebam a verdade com fé, amor, mansidão e prontidão de espírito, como a palavra de Deus.’ Aqui, novamente, a Assembleia de Westminster ecoa aqueles que foram antes deles. Claro, nem tudo o que era pregado era, de fato, a ‘Palavra de Deus’ e nem todos deveriam pregar. Somente quando a Palavra é interpretada apropriadamente é a Palavra de Deus que é trazida ao povo. E enquanto o diretório enfatizava que todos deveriam ler suas Bíblias, o Catecismo Maior enfatiza que ‘a palavra de Deus deve ser pregada somente por aqueles que são suficientemente dotados’ e, acrescenta, ‘também devidamente aprovados e chamados para esse ofício’. Num primeiro ou segundo momento, tal afirmação pode parecer um pouco presunçosa; soa como se fosse um longo apelo a um tipo de segurança empregatícia. Afinal, como observa Robert Norris, não há nada surpreendente em um grupo de pregadores enfatizando a pregação.

Mas quando se reflete novamente sobre as declarações a respeito da pregação feitas até agora, esses requisitos fazem sentido. A pregação é especial. Os homens da Assembleia acreditavam que o Cristo exaltado está sentado à direita de Deus, e ‘fornece dons e graças aos ministros e ao povo, e intercede por ele. Cristo dá dons ao seu povo – a alguns o dom da pregação – e comissiona o pregador e torna a pregação eficaz por Seu Espírito. Uma ênfase na pregação e nos pregadores, para os teólogos de Westminster e para aqueles antes deles, foi um ênfase na graça de Cristo e no poder do Espírito. A ênfase na pregação em poder do Espírito e ‘não nas palavras sedutoras da sabedoria do homem’, surge novamente na pergunta 159 do Catecismo Maior. Lá, na resposta à pergunta: ‘Como a palavra de Deus deve ser pregada por aqueles que são chamados para isso? ‘ os teólogos afirmam que, aqueles que são chamados para trabalhar no ministério da palavra, devem pregar a sã doutrina, diligentemente, a tempo e fora de tempo; claramente, não em palavras sedutoras de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder; fielmente, tornando conhecido todo o conselho de Deus; sabiamente, aplicando-o às necessidades e capacidades dos ouvintes; zelosamente, com fervoroso amor a Deus e às almas de seu povo; sinceramente, visando sua glória e sua conversão, edificação e salvação. Enquanto esta pergunta e resposta dificilmente parecem excepcionais, mesmo para os críticos mais ferrenhos da Assembleia, a maioria das outras declarações da assembleia seria. Em particular, há seis afirmações que provavelmente soariam estridentemente aos ouvidos dos oponentes de Westminster. Primeiro, a pregação deve ser restrita apenas aos ministros ordenados. Em segundo lugar, esses ministros devem ser devidamente treinados antes de seu ministério de pregação e estudiosos enquanto engajados na pregação. Terceiro, quando a pregação está de acordo com as Escrituras, deve ser ouvida e recebida como Palavra de Deus. Quarto, quando homens ordenados pregam fielmente, a pregação é a forma mais eficaz dos meios ordinários de graça, mais do que a leitura da Bíblia ou a administração dos sacramentos; os meios públicos de graça são mais eficazes que os privados. Quinto, e bem conectado com as afirmações anteriores, o sermão deveria ser centrado no evangelho; foi feito para ser uma pregação centrada em Cristo. Sexto, nenhuma pregação, por mais inteligente e persuasiva que seja, seria eficaz sem a operação de Deus, por seu Espírito, no ouvinte. A que nível os próprios teólogos concordaram com esses seis pontos? Se um argumento pode ser baseado em silêncio, pode ser significativo que, para usar um padrão mais antigo, nenhum voto dissidente está gravado.

Também pode ser notado que não há longos debates sobre esses temas na Assembleia, exceto pela oposição de Tuckney, Gouge e Gataker ao Diretório que recomenda a estrutura de sermão tripartite de Perkins.

Por que os teólogos de Westminster mantiveram esses princípios impopulares? Certamente, a resposta está ligada à sua herança intelectual e ao seu contexto histórico. Mas no final do dia, a principal fonte de autoridade da Assembleia para todas as coisas, e a teologia em particular, era a Bíblia. A discussão a seguir tenta traçar cada uma dessas seis conclusões alcançadas pela Assembleia até suas raízes exegéticas, enquanto procura determinar o grau de unidade que obteve entre os teólogos nestes assuntos.

Imagem do topo: Spurgeon Surrey Domínio Público – Wikimedia Commons

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