TUDO POSSO NAQUELE QUE ME FORTALECE

Por Caio Amaral

É muito comum quando estamos lendo o livro dos Atos dos apóstolos, ficarmos maravilhados com a vida daqueles irmãos que foram usados por Deus. A ousadia e a intrepidez com que eles anunciavam o evangelho, os dons que eles receberam para efetuar sinais, milagres e curas a fim de testificar e credenciar a autoridade apostólica; o poder que eles foram revestidos, as muitas vitórias que eles tiveram seja na plantação de igrejas, seja na conversão dos gentios e muitas outras coisas maravilhosas que Deus fez usando aqueles irmãos.

O que muitas vezes passa despercebida por nós é a grande perseguição que esses homens sofreram, os naufrágios, as chibatadas, as prisões, os espancamentos, as bofetadas, as calúnias, as aflições, a solidão muitas vezes, as humilhações, as tribulações, os fracassos… Certamente a caminhada cristã naquela época era muito dura, havia muitas lutas, havia vitórias, mas também havia momentos de muita necessidade e sofrimento. Contudo um apóstolo em específico nos revelou um segredo, uma forma que ele tinha de encarar todas essas nuances que há na vida cristã, uma forma de enfrentar os dias bons e os dias maus, e o segredo é este: viver contente com aquilo que Deus te dá, e em toda e qualquer circunstância.

O apóstolo em questão é Paulo, aquele que mais, aparentemente, tinha “motivos” para viver descontente, a vida desse amado irmão teve tudo isso, honra e humilhação, fartura e escassez. Contudo uma lição valiosa sobre o contentamento ele nos deixa no capítulo 4 de sua carta aos Filipenses.

Primeiro ele começa o capítulo 4 dizendo o quanto sente alegria pela igreja de Filipos (versículo 1), depois ele escreve um imperativo: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos”(versículo 4), e é interessante ver a condicional que Paulo coloca, o motivo ou em quem deve estar a nossa alegria: em Deus. Ele sabia que se aqueles irmãos em Filipos aprendessem a se alegrar no Senhor eles viveriam contentes em qualquer situação, ainda em meio a perseguição que aquela igreja específica sofria.

No versículo 6, Paulo vai dizer que a oração é a atitude correta, e não a ansiedade. E finalmente no versículo 11 e 12 ele diz:

Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez;”.[1]

É muito pertinente observar a grande confiança e submissão que Paulo tinha em Deus, o grande desapego que ele tinha para a sua própria vida e a sua maturidade espiritual para ser contente com o que tem e com a circunstância que Deus o dá. Pois ser satisfeito com o que tem é uma forma de confiar na Santa e perfeita vontade de Deus, não é somente uma maneira de viver mais feliz, mas é também uma forma de obedecer a Deus, uma forma de confiar na soberania e cuidado de Deus. É preciso aprender o contentamento, assim como Paulo aprendeu, para ser feliz no Senhor em qualquer circunstância.

Mas ao contrário disso, quantas vezes nós vivemos a reclamar das situações e provações que o nosso Deus nos dá. Quantas vezes vivemos ansiosos, insatisfeitos, amargurados por causa dos nossos problemas e chegamos ao ponto de duvidar da providência de Deus, do seu eterno cuidado e amor para conosco. É um contraste muito grande com a atitude do apóstolo Paulo, ele estava escrevendo aquela carta da prisão, acorrentado todo dia a um soldado romano, esperando o dia da sua sentença, mas ele diz no versículo 13: “tudo posso naquele que me fortalece”.

Tudo podemos em Deus, inclusive viver contente na pobreza, na humilhação, na escassez. Esse é o sentido deste versículo que é tão mal interpretado pelos evangélicos. Esse versículo não diz que você pode ter o carro do ano, a melhor casa da sua cidade, o melhor emprego possível; não, o versículo diz que você pode viver contente em Deus em todas as circunstâncias, tendo todas essas coisas ou não, tendo carro ou andando a pé, sendo rico ou sendo pobre, sendo honrado ou humilhado, porque a verdadeira alegria de um crente não está nas coisas que o cercam, ou aquilo que o braço alcança ou o olho vê. A verdadeira alegria de um crente é Deus.

Por isso, precisamos aprender essa valiosa lição que é o contentamento, precisamos aprender a sermos satisfeitos e alegres com o que Deus nos dá, independente da circunstância, porque Deus é justo, perfeito e a sua soberania é inegociável. Que nunca nos esqueçamos desse imperativo: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos”(Filipenses 4:4).


NOTAS

[1] Há um livro publicado no Brasil como A Rara Joia do Contentamento Cristão, de Jeremiah Burroughs, que tem uma análise extremamente detalhada do texto de Filipenses 4.

Imagem do Topo: The Apostle Paul de Rembrandt. c. 1657 Widener Collection. Domínio Público.

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