GUERRA LINGUÍSTICA

Por Wallas Pinheiro

A REVELAÇÃO DE DEUS E AS PALAVRAS

“[…] até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra”

Mateus 5.18

Esse texto do Evangelho segundo Mateus é bem claro: nem o menor sinal gráfico passaria da Lei sem que tudo se cumprisse. A questão, porém, não é o cumprimento, mas o fato de que Jesus demonstra que Deus dá atenção a cada sinal escrito. A letra “i” a qual Jesus se refere é o “yod”, décima letra hebraica, que se escreve como à frente י; esta é a menor letra do alfabeto hebreu. Porém, menor ainda é o “til”. Este grafo não é se quer uma letra, é apenas a distinção entre uma letra e outra, algo semelhante à diferença entre a letra “F” e a letra “E” em português (um simples traço inferior distingue ambas as letras)[1].

Parece-nos evidente que Deus está bem interessado em cada letra e traço escrito na Lei mais do que nós mesmos estamos. Mas por quê? Deus lida com a linguagem e nos mostra que o raciocínio está profundamente ligado às palavras que conhecemos. Em relação a Deus, cada palavra preserva algo de seus decretos e propósitos; em relação a nós, é a base de raciocínio e compreensão do mundo.

Como um exemplo mais claro de como Cristo mesmo quis que raciocinássemos a partir das Escrituras, veja o texto de Lucas 24.25-27:

E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras.

O texto evidencia o tratamento de Cristo a respeito das palavras das Escrituras. Jesus estava ressurreto diante dos apóstolos, mas em sua sabedoria não os dá como evidência de sua ressurreição o fato de estar diante deles, mas o fato de isso estar escrito. Os apóstolos tinham evidências incontestáveis diante de seus olhos, porém, Cristo quis que entendessem sua ressurreição via texto bíblico. Para Cristo, as palavras da Escritura são mais importantes do que o que está diante de nossos olhos.

O USO INDEVIDO DAS PALAVRAS

É evidente que essa noção de uso das palavras não é exclusiva do Cristianismo. Os descrentes e ímpios têm tentado dominar a linguagem para distanciar o ser humano daqueles princípios básicos determinantes dados por Deus, principalmente no que diz respeito à sua Lei. Talvez um exemplo linguístico desse caso seja o ódio aos “rótulos”.

Tem-se acreditado que a “rotulagem” das pessoas é, principalmente, devido a um convívio social julgador, tóxico, que quer isolar e separar o outro. Porém, não é isso que as Escrituras ensinam. Nelas, se uma pessoa passa a furtar é um ladrão; se ela passa a adulterar, é um adúltero. Os atos sempre precedem a existência do rótulo que, por sua vez, nada mais é do que o jeito natural que Deus determinou para aplicar corretamente o julgamento sobre as coisas. Afinal, uma sociedade sem ladrões, adúlteros, fornicadores etc. não é perfeita, mas é uma tentativa de imitação do céu, o que sempre resulta em algum tipo de totalitarismo político/social. O ponto é que sem se classificar corretamente o mal, como combatê-lo? O resultado disso sempre é a injustiça.

Como o apóstolo João deixa claro, o pecado é transgressão da Lei (1 Jo 3.4). Então, se mudarmos os nomes dos pecados, os fazendo significarem algo diferente, mudamos de Lei e, portanto, mudamos para outro deus, um deus secular.

O ponto é que sem se classificar corretamente o mal, como combatê-lo? O resultado disso sempre é a injustiça.

Hodgkinson (1955)[2] observou que a distorção linguística costuma ser fruto de uma tentativa de controle social, e ele fez um extenso estudo sobre essas distorções na Rússia. Quando observamos o Ocidente, especificamente o Brasil e Estados Unidos, podemos ver que a distorção tem sido bem sucedida. Crimes de “racismo”, “sexismo”, “homofobia” são comuns, mas onde estão os crimes verdadeiros, aqueles que são a quebra dos mandamentos? Se não têm aparecido, provavelmente é porque não estão sendo punidos – e se não são punidos, pessoas inocentes estão sofrendo nas mãos dos reais criminosos.

O afastamento social da linguagem, “letra por letra” das Escrituras, tem levado a um afastamento do raciocínio correto que, por sua vez, tem causado parcialidade no julgamento da realidade levando-nos a uma crise de injustiças. Sem se identificar acertadamente os pecados, não se identifica as pessoas que os praticam e tais pessoas não são punidas ou não o são corretamente.

É necessária uma aproximação dos termos bíblicos para pecado, se quisermos ser justos evitando parcialidade e leituras incorretas da realidade. É a busca pelo texto bíblico, em cada “i” ou “traço” que nos leva de volta a uma compreensão linguística correta do que nos cerca.

Em um texto futuro, entraremos em mais detalhes do uso indevido das palavras e de como o raciocínio depende delas.


NOTAS

[1] Em português o termo traduzido como “til” pode não ser a melhor correspondência, já que os chamados “Sinais Massoréticos” (o ‘til’ da letra hebraica) não existiam antes de Cristo para distinguir as letras. A palavra  κεραία (keraia) em grego tem um sentido mais próximo de “traço”. Clique aqui caso queira consultar essa palavra.

[2] HODGKINSON, Harry. DoubleTalk: The Language of Communism. 1. ed. Allen & Unwin, 1955.

Imagem do topo: Person Holding Magnifying Glass. Domínio Púlbico.

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